Ao entrar no pavilhão para assistir à palestra de Carla Buzasi, CEO da WGSN, no Web Summit, ficou claro logo nos primeiros minutos que não se tratava de mais uma apresentação sobre tendências “distantes”. A provocação era direta: o consumidor de 2027 já está moldando decisões hoje, e as marcas que não perceberem isso agora vão sentir o impacto muito antes do que imaginam.
A WGSN é conhecida globalmente por seu trabalho de previsão de tendências, apoiando marcas a entenderem mudanças de comportamento, estilo de vida e consumo com antecedência. Mas o que mais me chamou atenção nesta palestra foi o tom prático. Apesar de o recorte temporal ser 2027, Carla reforçou várias vezes que essas transformações já estão em curso — e que líderes de marketing, estratégia e produto precisam agir agora.
Essa visão conversa muito com o que vemos no dia a dia da consultoria estratégica da Nagata & Gasparini: empresas que se antecipam às mudanças culturais e comportamentais conseguem tomar decisões mais consistentes, seja em posicionamento, portfólio de serviços, experiência do cliente ou comunicação.
Neste primeiro artigo, compartilho o principal aprendizado inicial da palestra: a epidemia da solidão e o papel das marcas na reconstrução de conexões humanas.
A epidemia da solidão: o grande pano de fundo do consumo futuro
Carla iniciou a palestra abordando um tema pesado, mas inevitável: a solidão. Segundo dados apresentados pela WGSN, baseados em fontes como a Organização Mundial da Saúde, a solidão se tornou um fenômeno global, transversal a idades, culturas e classes sociais.
Pandemia, crises econômicas, fechamento de espaços de convivência e a digitalização excessiva das relações contribuíram para esse cenário. O ponto mais interessante, no entanto, foi perceber que as gerações mais jovens sabem diferenciar conexão digital de conexão real.
Ao contrário do senso comum, Gen Z e Geração Alpha não acreditam que likes, jogos online ou mensagens substituem o contato humano. Pelo contrário: elas sentem falta dele.
Um dado citado durante a palestra foi particularmente impactante: 40% dos consumidores nos EUA veem amigos ou familiares presencialmente menos de uma vez por semana. Esse vazio emocional está moldando novas expectativas em relação às marcas.
Oportunidade estratégica: marcas como facilitadoras de conexão com o consumidor
A grande virada de chave da palestra foi entender que as marcas podem — e devem — atuar como facilitadoras de conexão humana. Não no sentido superficial de “engajamento”, mas criando contextos reais para encontros, conversas e pertencimento.
Carla foi enfática: isso não significa grandes eventos, ativações milionárias ou experiências complexas. Muitas vezes, são pequenas decisões de design, serviço ou comunicação que fazem a diferença.
Exemplos práticos apresentados no palco
Alguns cases apresentados ilustraram bem esse ponto:
- Jumbo (Holanda): a rede de supermercados criou caixas de pagamento “sem pressa”, pensados inicialmente para idosos. O resultado foi surpreendente: consumidores jovens também passaram a preferir esses caixas, buscando interação humana em meio à rotina acelerada.